A recente escalada das hostilidades no Irão produziu claros perdedores: o governo iraniano, os civis apanhados no fogo cruzado e as nações que dependem de mercados energéticos estáveis. No entanto, no meio do caos, um actor tem a ganhar significativamente: o Presidente russo, Vladimir Putin.
Embora pareça contraintuitivo, dado o estatuto do Irão como aliado fundamental, a guerra apresenta à Rússia uma confluência de vantagens económicas e geopolíticas. Putin condenou o conflito ao mesmo tempo que colheu discretamente os benefícios do aumento dos preços do petróleo, do enfraquecimento da aplicação de sanções e de um desvio do foco ocidental. Como disse sucintamente Angela Stent, especialista da Universidade de Georgetown: “No curto prazo, pelo menos, Putin ganhou a sorte grande nesta questão”.
A sorte inesperada de energia
As receitas do petróleo e do gás constituem cerca de um terço das receitas do governo russo, alimentando directamente o seu esforço de guerra na Ucrânia. O aumento dos preços globais do petróleo desde o início do conflito acrescentou cerca de 150 milhões de dólares por dia às vendas de petróleo da Rússia – potencialmente perto de 5 mil milhões de dólares no próximo mês, se os preços permanecerem elevados. O levantamento temporário das sanções ao petróleo russo pela administração Trump facilita ainda mais estes ganhos, permitindo que as remessas cheguem a compradores em todo o mundo.
Isto surge num momento crítico para Moscovo, que viu as receitas energéticas despencarem no ano passado para os níveis mais baixos desde a pandemia de Covid. As sanções e ameaças de tarifas reduziram a procura de clientes importantes como a Índia, e o petróleo russo estava a ser vendido com grandes descontos. Esses descontos desapareceram em grande parte nas últimas semanas.
Desvio da atenção ocidental
O conflito também serve para desviar a atenção e os recursos ocidentais. As munições destinadas à Ucrânia, incluindo sistemas cruciais como os interceptadores de mísseis Patriot, podem ser reencaminhadas para o Médio Oriente. As autoridades dos EUA reconhecem este potencial desvio, com Trump a lamentar que o armamento dos EUA tenha sido fornecido a “P.T. Barnum (Zelenskyy!)”.
Entretanto, a Rússia está alegadamente a fornecer ao Irão informações sobre alvos sobre as forças dos EUA na região, reflectindo o apoio de inteligência que os EUA têm fornecido à Ucrânia. Este intercâmbio recíproco mina ainda mais os interesses ocidentais, ao mesmo tempo que reforça a posição da Rússia como um interveniente-chave na dinâmica regional.
Ucrânia perde o foco
A crise empurrou a Ucrânia ainda mais para baixo na lista de prioridades em Washington e nas capitais europeias. As conversações planeadas envolvendo a Ucrânia foram adiadas e Putin está provavelmente contente em continuar a levar a cabo uma guerra que acredita poder ser vencida no campo de batalha. O Presidente ucraniano Zelenskyy manifestou preocupação de que os EUA possam “afastar-se da questão da Ucrânia por causa do Médio Oriente”.
No entanto, a Ucrânia espera obter alguma vantagem com a crise, oferecendo a sua experiência no combate aos mísseis e drones iranianos, garantindo potencialmente acordos de tecnologia de defesa a longo prazo com os Estados do Golfo. Embora os EUA tenham recusado um acordo de tecnologia de drones com a Ucrânia no ano passado, a oferta de ajuda de Zelenskyy foi rejeitada por Trump na semana passada.
Um adiamento, não uma reversão
A vantagem da Rússia depende da duração da guerra. Se a perturbação nos mercados petrolíferos globais se revelar de curta duração, os benefícios económicos serão mínimos. Da mesma forma, uma rápida mudança de regime no Irão que resultasse num governo pró-americano diminuiria os ganhos da Rússia. No entanto, um conflito prolongado que termine com uma linha dura no poder solidificaria a posição de Moscovo.
Politicamente, a guerra já minou os esforços da administração Biden para isolar a Rússia, à medida que cresce a raiva no Sul Global relativamente ao apoio dos EUA a Israel. Putin, posicionando-se como mediador, pretende explorar uma situação em que grande parte do mundo vê os EUA como o agressor.
Em conclusão, a guerra no Irão não é apenas um conflito regional; é uma sorte geopolítica inesperada para a Rússia, reforçando a sua economia, desviando a atenção do Ocidente e solidificando a sua posição como um actor-chave numa ordem mundial fracturada.




























